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Medicina Intensiva · · 5 min de leitura

Manejo Inicial da Sepse: Guia Prático Baseado no Surviving Sepsis Campaign 2021

Protocolo atualizado para reconhecimento precoce e tratamento da sepse nas primeiras horas — antibioticoterapia, ressuscitação volêmica, vasopressores e metas clínicas.

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Dr. Equipe UTI.med.br

Pontos-Chave

  • Sepse é uma emergência médica — cada hora sem antibiótico adequado aumenta a mortalidade em ~7%
  • Coletar hemoculturas ANTES dos antibióticos, sem atrasar o início
  • Bundle de 1 hora: lactato, hemoculturas, antibióticos, 30 mL/kg cristaloide se hipotensão ou lactato ≥4
  • Norepinefrina é o vasopressor de primeira linha no choque séptico
  • Meta de PAM ≥65 mmHg; reavaliar resposta volêmica com parâmetros dinâmicos

Definição e Critérios Diagnósticos

A sepse é definida como disfunção orgânica com risco de vida causada por resposta desregulada do hospedeiro à infecção (Sepsis-3, 2016).

SOFA ≥2 pontos em relação ao basal caracteriza disfunção orgânica.

Choque séptico = sepse + vasopressor para manter PAM ≥65 mmHg E lactato superior a 2 mmol/L após ressuscitação volêmica adequada.

Bundle de 1 Hora (SSC 2021)

O Surviving Sepsis Campaign recomenda iniciar todas as ações abaixo em até 1 hora do reconhecimento:

  1. Medir lactato — se superior a 2 mmol/L: repetir em 2h para avaliar clareamento
  2. Coletar hemoculturas — 2 pares, antes dos antibióticos (não atrasar)
  3. Iniciar antibioticoterapia empírica de amplo espectro
  4. Ressuscitação volêmica: 30 mL/kg de cristaloide IV se PA sistólica abaixo de 90 mmHg ou lactato ≥4 mmol/L
  5. Iniciar vasopressor se hipotensão persistir durante/após infusão de volume

Ressuscitação Volêmica

Fase Inicial

  • 30 mL/kg de cristaloide isotônico (SF 0,9% ou Ringer lactato) nas primeiras 3 horas
  • Preferir Ringer lactato quando possível (menor risco de acidose hiperclorêmica)
  • Avaliar resposta após cada bolus — evitar sobrecarga hídrica

Avaliação de Responsividade Volêmica

Use parâmetros dinâmicos para guiar infusão além da fase inicial:

Parâmetros dinâmicos de responsividade volêmica

MétodoPonto de corteLimitações
Variação da pressão de pulso (VPP)>13% = responsivoRequer VM controlada, FC regular
Variação do volume sistólico (VVS)>10–15% = responsivoRequer VM controlada
Passive leg raising (PLR)↑DC >10% = responsivoVálido em respiração espontânea
Mini-fluid challenge (100 mL/1 min)↑VVS >6% = responsivoRequer monitorização contínua de DC

Vasopressores

Primeira Linha: Norepinefrina

Norepinefrina — preparo e doses

ApresentaçãoPreparo padrãoDoseMeta
Norepinefrina 4 mg/4 mL4 mg em 246 mL SF = 16 mcg/mL0,1–3,0 mcg/kg/minPAM ≥65 mmHg

Terapia Adjuvante

  • Vasopressina 0,03 UI/min: considerar se NE acima de 0,25 mcg/kg/min para poupar norepinefrina ou no choque refratário
  • Epinefrina: alternativa à NE ou adicional quando resposta inadequada
  • Hidrocortisona 200 mg/dia (infusão contínua ou 50 mg 6/6h): considerar se dose de NE acima de 0,25 mcg/kg/min sem resposta adequada

Antibioticoterapia Empírica

Iniciar em ≤1 hora, cobrindo o foco suspeito mais provável:

Escolha empírica por foco provável

FocoEsquema empíricoDuração
UrinárioCeftriaxona 2g IV + Amicacina se risco de ESBL7 dias
Pulmonar (PAC grave)Ceftriaxona 2g IV + Azitromicina 500mg IV5–7 dias
AbdominalPiperacilina-Tazobactam 4,5g IV 6/6h4–7 dias + controle de foco
SNCCeftriaxona 2g IV 12/12h + Dexametasona 0,15 mg/kg7–21 dias (conforme agente)
Sem foco definidoPip-Tazo 4,5g IV 6/6h ± Vancomicina se risco MRSAReavaliar com culturas

Monitorização e Metas

ParâmetroMeta
PAM≥65 mmHg (considerar ≥80 em hipertensos crônicos)
LactatoClareamento ≥10–20% em 2h; normalização abaixo de 2 mmol/L
Diurese≥0,5 mL/kg/h
SvcO₂≥70%
Glicemia140–180 mg/dL

Checklist das Primeiras 6 Horas

  • Hemoculturas coletadas (2 pares)
  • Antibiótico iniciado ≤1h
  • Lactato medido; se acima de 4: repetir em 2h
  • Ressuscitação volêmica realizada
  • Vasopressor iniciado se PAM abaixo de 65 após volume
  • Acesso venoso central ou periférico calibroso
  • Glicemia controlada (140–180 mg/dL)
  • Profilaxia de TVP e úlcera de estresse
  • Cabeceira a 30–45°
  • Meta de ventilação protetora se VM (Vt 6 mL/kg peso ideal)

Referências

  1. [1] Evans L, et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Crit Care Med. 2021;49(11):e1063-e1143. DOI: 10.1097/CCM.0000000000005337
  2. [2] Seymour CW, et al. Time to Treatment and Mortality during Mandated Emergency Care for Sepsis. N Engl J Med. 2017;376(23):2235-2244. DOI: 10.1056/NEJMoa1703058
  3. [3] Levy MM, et al. The Surviving Sepsis Campaign Bundle: 2018 update. Crit Care Med. 2018;46(6):997-1000. DOI: 10.1097/CCM.0000000000003119

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